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Padre Gilvan Rodrigues


01/07/2010 16:47

MINISTERIUM SACERDOTALE

No âmbito de uma ordenação sacerdotal, a grandeza e os desafios de se esforçar para favorecer uma situação producente e harmoniosa, exigem determinação e coragem para que muitas pessoas de boa vontade e generosas dêem a sua efetiva colaboração. Com certeza, o aspecto humano marca profundamente o embalo e a atmosfera festiva no âmbito da espiritualidade que envolve a pessoa de cada ordenado. Assim, a comunidade faz uma experiência do céu: Deus chega sobre cada um dos consagrados com a "sensação de graça" que só a experimentam aqueles que a recebem. O céu une-se à terra, deixando rebentar no coração e na alma do néo-sacerdote a grandeza inexaurível do ministério sacerdotal, que brota do Sumo e Eterno sacerdócio de Jesus Cristo. O invisível aos olhos humanos, é sentido de maneira muito forte pelos que se prostraram por terra, como sinal de abandono e total doação a Cristo para o serviço aos irmãos na obediência filial à Igreja de Jesus. Tocados por Cristo na profundidade de sua alma, cada sacerdote permite que o amor e a misericórdia de Deus se derramem por sobre si para a santificação dos irmãos em Cristo, os verdadeiros filhos espirituais da Igreja, adquiridos com o preço do sangue inocente de Cristo, derramado no Monte Calvário. É a humanidade toda do sacerdote que é invadida pela riqueza desse mistério. A vida sacerdotal é um mistério. Um mistério que passa pelas fragilidades de um homem, mas que faz Deus presente no seio da comunidade.

Na segunda ordenação que tive o privilégio de participar, em 1987, quando tinha acabado de ingressar no Seminário Menor, em Aracaju, o bispo de então, Dom Hilário Mozer, dissera que se pudéssemos ver com os olhos da carne o que acontece na pessoa de um jovem ordenado sacerdote, sentir-nos-íamos no céu. E creio que esta é a experiência que faz cada néo-sacerdote, tomado pelo conhecimento próprio da sensibilidade espiritual que lhe invade, misteriosamente, deixando em si a percepção de que algo de incomum atingiu todo o seu ser, transformando-o pelo lado de dentro, nas dobras mais profundas da alma consagrada e oferente.

Quando a Igreja se refere aos sacramentos, de modo geral, ela fala que o sacramento é um sinal visível através do qual Deus comunica uma graça especial, santificante e invisível. O sacerdote é, então, o instrumento de Deus para que tal graça seja transmitida e, assim, ele possa regenerar a obra da Criação, que tem o seu ponto alto na revelação de Cristo que, como nos ensina a Constituição Pastoral Gaudium et Spes, do Concílio Vaticano II, "na própria revelação do mistério do Pai e do seu amor, revela o homem a si mesmo e descobri-lhe a sua sublime vocação", [pois, tal verdade tem] "nele a sua fonte e nele atinge a sua plenitude" (GS, n. 22). É o amor generoso e despretensioso do Pai quem motiva a capacidade de servir a todos, a partir do exemplo deixado pelo seu próprio Filho, que "não veio para servido, mas para servir e dar a vida em resgate por muitos...". Por conseguinte, "escolhendo os dispensadores dos mistérios divinos, reveste-os com variedade de dons e carismas para que, sempre e em toda parte, ofereçam o sacrifício perfeito, e edifiquem, com a palavra e os sacramentos, a Igreja peregrina e Santa, comunidade da Nova Aliança e templo vivo [do louvor de Deus]" (Prefácio do Sacramento da Ordem).

Deus não quis os anjos para serem os seus sacerdotes. Deus quis os homens. Homens escolhidos por pura misericórdia e gratuidade, por que gratuidade e misericórdia é o mistério do plano salvífico de Deus que encontrou nas limitações de homens a matéria prima que levasse a cabo a continuidade operosa da salvação eterna até o fim do mundo. Se Deus quis assumir o incômodo de se tornar um de nós, em todas as dimensões radicais da nossa humanidade, exceto no pecado, aceitando inclusive o sofrimento e a morte, por que não poderia escolher homens iguais a ele na carne para o ministério inaudito de sua benevolência que, de geração em geração, cumula os homens de todos os tempos da riqueza insondável de Cristo Salvador? Extraordinário mistério que supera todos os parâmetros de nossa débil compreensão humana, mas nos mergulha, misticamente, no santuário da graça redentora de Cristo de quem recebemos a plenitude do ministério que exercitamos.

No Antigo Testamento, a imagem do sacerdote foi sendo configurada aos poucos, paulatinamente, e a importância de sua finalidade ganhou fulgor, sobretudo, quando Israel foi constituído como povo de Deus, escolhido e amado. Sua função e o seu labor consistiam, especialmente, na disponibilidade reverencial com que prestavam culto a Deus em nome do povo. Como nos ensina a tradição bíblica, ele assumia o papel de porta voz de Deus para o povo eleito e o de embaixador do povo diante de Deus, o que acontecia, sempre, em virtude da relação entre Deus e o seu povo. Em palavras simples, é o que afirma a Carta aos Hebreus quando fala do sacerdócio de Cristo, "porquanto todo sumo sacerdote, tirado do meio dos homens é constituído em favor dos homens em suas relações com Deus. Sua função é oferecer dons e sacrifícios pelos pecados..." (Hb 5,1). Assim, já no Novo Testamento, purificando a figura do sacerdote de defeitos e vícios que o distanciavam de sua missão específica, quando "a dignidade do sumo sacerdote se tornou objeto de ambições e rivalidade estrema" (A. Vanhoye), sendo, também, até, criticado pelo profeta Malaquias (2,1-9), Cristo dá um sentido novo ao sacerdote, sendo, ele mesmo, o Sumo e Eterno sacerdote por excelência, não havendo mais separação entre a vítima e o sacerdote, como no AT. Agora, à luz da Nova e Eterna Aliança em seu sangue, Cristo é o pontífice por excelência, desdobrando-se na pessoa de cada sacerdote por meio de quem ele manifesta, sempre de novo, os favores dispensados em virtude do sacrifício redentor do Cordeiro imolado que tira o pecado do mundo.

Em meio à labuta do ministério sacerdotal, nem sempre estaremos em condições de entender ou perceber o alcance do que Deus pode realizar nas pessoas por meio de nossa generosidade, mas com certeza, podemos intuir e tocar, quase com o dedo, as chagas abertas da humanidade ferida pelo desconforto sobrenatural do pecado, mas cuja operosidade é limitada pela graça oferecida pelo nosso ministério sacerdotal, quando, por meio dos sacramentos, levamos a todos que os recebem a graça santificante de Cristo. Na verdade, apresentamos todo o nosso ser em contínua oblação como Cristo para o bem de nossos irmãos. Só no céu iremos entender a grandeza deste mistério por causa da "inaptidão" de nossas próprias insuficiências, de nossos pecados e limitações. Quantos recusam o sacerdote em razão de sua idêntica co-naturalidade humana!!! Como diz São Paulo, muitas vezes somos expostos ao mundo em espetáculo, a escória do mundo, o lixo da humanidade. É uma porção do preço do discipulado que temos de pagar, assumindo a nossa "parte de sofrimento como um bom soldado de Cristo Jesus" (2Tm 2,3). De fato: "Somos atribulados por todos os lados, mas não esmagados; postos em extrema dificuldade, mas não vencidos pelos impasses; perseguidos, mas não abandonados; prostrados por terra, mas não aniquilados. Incessantemente e por toda parte trazemos em nosso corpo a agonia de Jesus, a fim de que a vida de Jesus seja também manifestada em nosso corpo. Com efeito, nós, embora vivamos, somos sempre entregues à morte por causa de Jesus, a fim de que também a vida de Jesus seja manifestada em nossa carne mortal" (1Cor 3,8-10).

Enfim, por trás de cada consagrado, há, de igual maneira, um Cristo crucificado. O passar dos anos será testemunha da conjuntura que envolve a realidade desse mistério de ter Cristo em nós, mais profundamente pelo ministério sacerdotal. Um dos padres da Igreja afirmava que os dois sacramentos que mais intrinsecamente tornavam Cristo presente eram o Sacramento da Ordem e o da Eucaristia. Sim, agimos por Cristo, com Cristo e em Cristo.

Concluindo o Ano Sacerdotal, que o Senhor Jesus, Sumo e Eterno Sacerdote, renove em todos os seus sacerdotes a graça da perseverança, da generosidade, da fidelidade e da alegria serena da doação a Cristo e à Igreja para o bem do rebanho do Bom Pastor.


Pe. Gilvan Rodrigues dos Santos
Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma e Escritor.


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