Atalaia Agora - Informação na Hora

Ir direto para o conteúdo
Busca


Onde estou? Home Blogs Álvaro Müller


Blogs

Álvaro Müller


09/08/2010 11:07

É proibido xingar

Em pleno Século XXI, só me faltava essa: censura, mordaça no torcedor de futebol. Dizer impropérios no estádio virou caso de polícia. O juiz marcou um pênalti inexistente contra seu time, o assistente anulou um gol legítimo em plena final de campeonato, a torcida adversária provoca a todo instante? Aguenta coração! E aguenta calado! Se xingar, vai em cana, vagabundo!

O mais engraçado disso tudo é que a lei foi sancionada pelo presidente Luis Inácio Lula da Silva, torcedor ferrenho do "Curinthia" e apegado à linguagem popularesca como ninguém. Me poupe, viu. Esqueceram que o xingamento faz parte da cultura popular. `Filho da puta`, por exemplo, pode fazer referência até mesmo aos nossos melhores amigos, com quem temos um grau elevado de intimidade. Mas na arquibancada é crime? Façam-me o favor!

Acho que os fazedores de leis deste país deveriam se preocupar em simplificar a linguagem jurídica, e não transformar um simples xingamento na arquibancada em caso de justiça. Por outro lado, o novo Estatuto pode ser a deixa para que o torcedor aprenda a ser sacana na diplomacia, sem perder a classe, o que, aliás, faz dos nossos políticos eternos inocentes.

Não quero aqui fazer discurso contra o Estatuto do Torcedor. É inegável que a nova lei apresenta avanços em muitos pontos, no sentido de coibir a violência nos estádios. O cadastramento de associados das torcidas organizadas, por exemplo, é algo positivo, pode servir para acabar com a velha desculpa da ‘rixa de bairro`. Ou alguém já viu agressores e agredidos com camisas da Atalaia, Santos Dumondt, Santa Maria, Sol Nascente, Bugio...?

Já outras medidas que tendem a moralizar o futebol soam um tanto quanto irônicas. Vamos a elas: 1) Cambistas flagrados vendendo ingressos de forma ilegal estão sujeitos a pena de um a seis anos de prisão, mais multa. Legal! Mas quanto às filas nos guichês dos estádios? O que prevê o Estatuto? 2) O torcedor que cometer ato de vandalismo e violência em até 5 quilômetros do estádio pode pagar multa, ser proibido de assistir aos jogos e até preso. Bonito! Mas a polícia sergipana, que não consegue impedir o famoso corre-corre nas arquibancadas do Batistão, está preparada para isso? Sei não...

Sabido mesmo é que o torcedor xingador agora está sujeito a pagar caro por sua manifestação. Como se muitas vezes o xingamento não fosse um ato involuntário. Recorrendo mais uma vez ao clássico `filho da puta`, quando um torcedor apaixonado xinga um bandeirinha, não idealiza a mãe do assistente de seios à mostra na janela de um bordel. Ele apenas fala por falar. Sou torcedor e sei. E, diga-se de passagem, é muito discriminatório achar que `filho da puta` é um xingamento. Isso é, no mínimo, um desrespeito às prostitutas.

Creio que os legisladores de plantão deveriam estar atentos, sim, a outro tipo de xingamento. O xingamento jurídico. Alguém precisa criar um projeto de lei para acabar com o linguajar pedante, dito em audiências e escrito em processos, que soa como xingamento para o cidadão brasileiro, seja ele torcedor ou não. Neste ponto, os ‘doutores` da Justiça são craques e até recorrem ao latim e ao grego: É "exequatur" pra lá, "data vênia" pra cá, "sinalagmático" acolá, enquanto o sujeito simples permanece sem entender nada e muitas ludibriado sem saber. Aí é foda... EITA PORRRA! XINGUEI! PUTA QUE PARIU! XINGUEI DE NOVO AO DIZER "PORRA"! MEU DEUS! E O "PUTA QUE PARIU"? CARALHO! VOU SER PRESO! Ufa! Que sorte, não estou num estádio de futebol.

 

 


Publicidade


©2009 - Atalaia Agora - Informação na Hora Desenvolvido por AGW Internet